quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Melhor a Cada Dia!


Ser melhor a cada dia  

é ter coragem de se olhar,  

abrir as janelas da alma  

e deixar a verdade entrar.  

Reconhecer o que floresce,  

o que nutre e faz crescer,  

mas também o que corrói,  

o que é preciso esquecer.  

Amadurecer é escolha,  

é poda e é semear,  

descartar o que não serve  

e cultivar o que faz amar.  

Melhor não é calar,  

nem aceitar sem razão,  

é sentir o que faz sentido,  

é ouvir o próprio coração.  

Pois só quem se permite ver  

o claro e o escuro do chão,  

aprende que ser melhor  

é viver em transformação.  

Filosoficamente aqui apresento uma visão profundamente alinhada ao espírito existencialista, pois coloca o ser humano no centro de um processo incessante de autoconstrução e autenticidade. Não há essência predeterminada que determine quem somos; ao contrário, como defendia Sartre, "a existência precede a essência". Ser melhor a cada dia não é seguir um modelo externo ou um ideal fixo, mas exercer a liberdade radical de escolher o que conservar e o que descartar em si mesmo. Essa coragem de "se olhar" e "abrir as janelas da alma" evoca o confronto com a própria facticidade — o que já somos, com nossas contradições, feridas e potenciais — sem fugir para a má-fé de culpar o mundo ou os outros pela própria estagnação.

A imagem da poda e do semear no poema, captura o que Heidegger chamava de existência autêntica (Eigentlichkeit). Viver inautenticamente seria deixar-se levar pelo "eles" (das Man), aceitando valores prontos, rotinas vazias e conformismos que evitam o confronto com o próprio ser-para-a-morte e com a angústia da liberdade. Aqui porém, eu proponho o oposto: reconhecer o que "floresce" e o que "corrói", escolher descartar o que não serve e cultivar o que faz amar. Essa escolha constante é angustiante porque implica responsabilidade total — ninguém pode nos poupar do peso de decidir o que merece permanecer em nossa existência. A transformação não é um progresso linear e garantido, mas um ato corajoso de assumir o projeto de si mesmo em meio ao absurdo de um mundo com sentido predeterminado que nos tira do sentido próprio da vida.

A angústia existencial, (tema central em Kierkegaard e Sartre) que proponho sutilmente no poema quando falo em "sentir o que faz sentido" e "ouvir o próprio coração", não se trata de um sentimento confortável ou romântico, mas da náusea diante da liberdade absoluta: somos condenados a ser livres, obrigados a escolher sem garantias transcendentais ou autoridades externas que nos absolvam. Aceitar sem razão ou calar-se seria formas de fuga, de má-fé; já o caminho proposto — sentir, ouvir, ver o "claro e o escuro do chão" — exige suportar a angústia como preço da autenticidade. É nessa tensão que nasce a possibilidade genuína de amadurecimento: não como aperfeiçoamento moral imposto de fora, mas como compromisso livre com valores que nós mesmos criamos e sustentamos.

Quando finalizo — "viver em transformação" — resumo uma das contribuições mais potentes do existencialismo para a existência contemporânea: a rejeição da ideia de um eu fixo e acabado. Não existe um "eu melhor" como destino final; existe apenas o movimento contínuo de transcendência, de projetar-se para além do que já se é. Camus, ao falar do absurdo, nos lembra que essa transformação não elimina o absurdo da condição humana, mas permite enfrentá-lo com lucidez e rebeldia criadora. Ser melhor não é eliminar o escuro, mas aprender a habitá-lo sem deixar que ele nos defina por inteiro — é escolher, dia após dia, o gesto que afirma a vida apesar de tudo.

Assim, estes versos não oferecem consolo fácil nem receitas de autoajuda superficial. Ele nos devolve, com delicadeza lírica, a dura beleza da condição existencial: somos seres condenados à liberdade, à responsabilidade e à incessante reinvenção de si. Ser melhor a cada dia significa, portanto, abraçar essa condenação como vocação — não para chegar a um estado perfeito, mas para viver autenticamente a imperfeição, a finitude e a abertura radical ao devir. É nessa escolha diária e corajosa que o humano se revela, não como essência, mas como existência em um permanente devir.

Então, o que te move para ser mehor a cada dia?

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