Dois Mundos!
Minha obra respira entre dois mundos. Na metade inferior, um emaranhado azul profundo se entrelaça como raízes nervosas sobre um mar de pequenos círculos laranja em fogo. Acima, o papel permanece virgem — um silêncio branco, absoluto, que não pede nada e tudo contém.
Não
é apenas tinta e papel. É o mapa de uma alma que se divide entre o que se
constrói e o que se deixa em paz.
A
figura azul sobe, ramificada, teimosa, como se quisesse fincar raízes no caos e
ainda assim alcançar o vazio. O laranja pulsa ao redor, inquieto, feito de mil
gestos repetidos — o ruído do mundo, o fervilhar interno. E o branco, sereno,
espera. Não como ausência, mas como horizonte que respira.
No
fundo da minha psique, sinto a âncora e o abismo. A rede azul é minha tentativa
desesperada e bela de não me dissolver. Cada linha é uma escolha que se
ramifica, um caminho que se abre e pesa. O branco acima é o espaço do
ainda-não, o futuro que me chama e me assusta. A fronteira entre eles treme:
ali mora a ansiedade do horizonte, a linha tênue entre o conhecido e o
infinito.
Há um momento que a obra inteira se torna oração. O cheio é o Ser que já se fez carne de esforço
e história. O vazio é o Nada que permite a liberdade — e a vertigem. O Dasein se torna o emaranhado no tempo, olhando para o horizonte da própria finitude. O Ma
oriental, o intervalo sagrado que dá sentido ao som, o silêncio que permite que
o vazio exista.
E
no centro dessa tensão, descubro o antigo mistério da Kenosis — o
esvaziamento santo. Como o divino que se esvazia para que o humano possa
habitar. Como a noite escura que retira as luzes falsas para revelar a única
luz verdadeira. Kenosis não é destruição. É amor que abre espaço. É deixar cair
o supérfluo para que o essencial possa, enfim, respirar. Respirar em mim!
Enquanto
desenhava, senti no peito: “Minhas escolhas constroem este alicerce denso,
ramificado, vivo. Mas quanto mais ele cresce, mais me afasto do vazio que tanto
busco — dentro e fora de mim. Vazio que me conecta com a completude de quem um dia pretendo de tornar. Mas, me ramifico, me plasmo, me fixo. Por que continuo? Se posso soltar e fluir?
O
paradoxo me abraça: construo para me firmar e, sem querer, ocupo o espaço da
leveza. O alicerce se torna teto. A raiz, minha prisão.
Então, imagino o próximo desenho, a obra futura, a fusão desejada. Vejo o cheio se
esvaziando com ternura, e o vazio se preenchendo apenas do 'absolutamente
necessário' — sem amarras, sem prisões, sem apegos, sem qualquer
instrumentalização.
Uma Linha Única. Leve. Transparente. Que ainda carrega o DNA de toda a ramificação
anterior, mas agora destilada, fluida, transcendente como essência pura que atravessa o emaranhado e
emerge em sua simplicidade e essência.
Não
a simplicidade da ignorância, mas a simplicidade conquistada após a longa
travessia. Uma linha que não ocupa — ela habita. Que não luta — ela flutua. Que
não explica — ela apenas é.
Meu
desenho de hoje é testemunho do esforço. A Linha Única que sonho é testemunho da
graça.
Que
ela comece a surgir, sutil, no meio dos próximos emaranhados. Que flutue sobre
o laranja inquieto e se dissolva no branco com a naturalidade de quem
finalmente aprendeu a Ser sem o peso do caos.
Porque
minha busca pelo vazio não é fuga de mim mesma. É o caminho de volta à versão
mais pura, mais leve, mais verdadeira de quem eu sou.
Para
encerrar essa reflexão:
Se este desenho fosse Seu e tivesse que escolher uma única "linha" ainda hoje
que representasse esse "absolutamente necessário", ela seria parecida
com o que? Ou teria uma natureza completamente nova? Me conte o que te moveria a esta resposta?
Que
essa Linha Única comece a aparecer, leve e luminosa, entre os traços que ainda
virão!
