quarta-feira, 15 de abril de 2026

Cheio e Vazio: caos e harmonia

 

Dois Mundos!

Minha obra respira entre dois mundos. Na metade inferior, um emaranhado azul profundo se entrelaça como raízes nervosas sobre um mar de pequenos círculos laranja em fogo. Acima, o papel permanece virgem — um silêncio branco, absoluto, que não pede nada e tudo contém.

Não é apenas tinta e papel. É o mapa de uma alma que se divide entre o que se constrói e o que se deixa em paz.

A figura azul sobe, ramificada, teimosa, como se quisesse fincar raízes no caos e ainda assim alcançar o vazio. O laranja pulsa ao redor, inquieto, feito de mil gestos repetidos — o ruído do mundo, o fervilhar interno. E o branco, sereno, espera. Não como ausência, mas como horizonte que respira.

No fundo da minha psique, sinto a âncora e o abismo. A rede azul é minha tentativa desesperada e bela de não me dissolver. Cada linha é uma escolha que se ramifica, um caminho que se abre e pesa. O branco acima é o espaço do ainda-não, o futuro que me chama e me assusta. A fronteira entre eles treme: ali mora a ansiedade do horizonte, a linha tênue entre o conhecido e o infinito.

Há um momento que a obra inteira se torna oração. O cheio é o Ser que já se fez carne de esforço e história. O vazio é o Nada que permite a liberdade — e a vertigem. O Dasein  se torna o emaranhado no tempo, olhando para o horizonte da própria finitude. O Ma oriental, o intervalo sagrado que dá sentido ao som, o silêncio que permite que o vazio exista.

E no centro dessa tensão, descubro o antigo mistério da Kenosis — o esvaziamento santo. Como o divino que se esvazia para que o humano possa habitar. Como a noite escura que retira as luzes falsas para revelar a única luz verdadeira. Kenosis não é destruição. É amor que abre espaço. É deixar cair o supérfluo para que o essencial possa, enfim, respirar. Respirar em mim!

Enquanto desenhava, senti no peito: “Minhas escolhas constroem este alicerce denso, ramificado, vivo. Mas quanto mais ele cresce, mais me afasto do vazio que tanto busco — dentro e fora de mim. Vazio que me conecta com a completude de quem um dia pretendo de tornar. Mas, me ramifico, me plasmo, me fixo. Por que continuo? Se posso soltar e fluir?

O paradoxo me abraça: construo para me firmar e, sem querer, ocupo o espaço da leveza. O alicerce se torna teto. A raiz, minha prisão.

Então, imagino o próximo desenho, a obra futura, a fusão desejada. Vejo o cheio se esvaziando com ternura, e o vazio se preenchendo apenas do 'absolutamente necessário' — sem amarras, sem prisões, sem apegos, sem qualquer instrumentalização.

Uma Linha Única. Leve. Transparente. Que ainda carrega o DNA de toda a ramificação anterior, mas agora destilada, fluida, transcendente como essência pura que atravessa o emaranhado e emerge em sua simplicidade e essência. 

Não a simplicidade da ignorância, mas a simplicidade conquistada após a longa travessia. Uma linha que não ocupa — ela habita. Que não luta — ela flutua. Que não explica — ela apenas é.

Meu desenho de hoje é testemunho do esforço. A Linha Única que sonho é testemunho da graça.

Que ela comece a surgir, sutil, no meio dos próximos emaranhados. Que flutue sobre o laranja inquieto e se dissolva no branco com a naturalidade de quem finalmente aprendeu a Ser sem o peso do caos.

Porque minha busca pelo vazio não é fuga de mim mesma. É o caminho de volta à versão mais pura, mais leve, mais verdadeira de quem eu sou.

Para encerrar essa reflexão: Se este desenho fosse Seu e tivesse que escolher uma única "linha" ainda hoje que representasse esse "absolutamente necessário", ela seria parecida com o que? Ou teria uma natureza completamente nova? Me conte o que te moveria a esta resposta?

Que essa Linha Única comece a aparecer, leve e luminosa, entre os traços que ainda virão!