terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Eleutheromania, a febre sagrada!

 

  Arde em mim um fogo secreto,  

um ímpeto que não conhece grilhões,  

chama antiga, filha da eleuthería,  

ecoando nos vales da razão.

 

Não busco coroas nem tronos,  

nem ouro que prende em correntes sutis,  

procuro o sopro livre do vento,  

a dança do ser em si mesmo feliz.

 

Epicuro sussurra: prazer é medida,  

não de excessos, mas de escolha e paz.  

Eudaimonia responde: viver é potência,  

agir por si, sem que outro me faça capaz.

 

Eleutheromania, febre sagrada,  

obsessão que não se deixa calar,  

sou pássaro que rompe a gaiola,  

sou rio que insiste em se desaguar.

 

Liberdade não é dádiva, é conquista,  

não é promessa, é pulsar do coração.  

E quem a deseja com alma inteira,  

faz da vida um eterno clarão.

 Há dentro de meu Ser, uma chama que não explica sua própria existência. Ela simplesmente está. Não pede permissão, não negocia condições, não aceita ser domesticada nem controlada revestida por promessas de segurança e cuidado ou por aplausos coletivos. É antiga, teimosa, quase inconveniente. E, no entanto, é a coisa mais íntima que eu carrego.

Denominaram essa chama de várias coisas ao longo da história: eleuthería, autonomia, potência de agir, desejo de existir sem amarras alheias. Mas, o poema a nomeia com precisão febril: eleutheromania. Não é apenas amor pela liberdade; é febre. Uma febre sagrada, que queima sem destruir, que consome sem esgotar, que arde justamente porque recusa ser apagada.

O mais desconcertante nessa febre é que ela não deseja coisas. Não quer palácios, nem títulos, nem acumulações que possam ser exibidas. Quer espaço. Espaço para o sopro, para o erro sem julgamento imediato, para a dança desajeitada de quem está aprendendo a ser a todo instante... Quer o momento em que o corpo se move sem calcular utilidade, em que a mente pensa sem pedir licença, em que o coração pulsa sem ter de justificar sua intensidade. Em que o olhar se perde sem precisar se justificar. Em suspirar e soltar o ar numa auto regulação sem experimentar o peso de ser julgada por um suspiro.. Em apenas existir sem expectativas, sem vigilâncias, sem a cobrança de ser, de ser mais.

Há um lembrete sobriamente epicurista, onde o prazer verdadeiro não está na multiplicação dos desejos, mas na escolha lúcida do que realmente importa. Na potência de agir por si, sem a necessidade de validação que torna o outro capaz ou incapaz. Há na Eudaimonia a urgência no viver! Porque viver não é esperar condições perfeitas para florescer; é agir a partir de si mesmo quando as condições são imperfeitas — ou justamente por causa delas.

E então, o pássaro rompe a gaiola e o rio insiste em se desaguar. Ambos carregam a mesma verdade incômoda — a liberdade não é um estado final, confortável, conquistado de uma vez por todas. É movimento. É insistência. É o risco contínuo de transbordar, de vazar, de não caber nos limites que nos ofereceram como moradia segura e controlada.

Talvez seja por isso que a eleutheromania me assusta tanto — e fascina na mesma medida. Quem a carrega no peito não pode mais fingir que a vida cabe inteira dentro de um organograma, de uma opinião alheia, de uma identidade fixa. Quem a carrega vive condenado (ou privilegiado?) a se perguntar, em cada encruzilhada: “Isso que estou fazendo agora é meu ou é eco de alguém?”.

E quando a resposta é “é meu”, mesmo que trêmula, mesmo que custe caro, mesmo que ninguém aplauda — aí, por um instante, a vida vira clarão. Não porque tudo ficou resolvido, mas porque, naquele exato segundo, não estamos mais sendo vividos. Estamos vivendo!

A febre sagrada não promete felicidade fácil. Na verdade a felicidade nunca será fácil, é luta diária, é a profunda compreensão do sentido da vida. E chegar a esta compreensão DÓI! No entanto, a febre sagrada promete algo mais raro, a possibilidade de que, mesmo ferida, mesmo vulnerável, mesmo que seja temporário, possamos ARDER com autenticidade. E isso, talvez, seja o mais próximo que temos de uma Chama Eterna.

Então, o que te move para esta liberdade? Já sentiu esta febre sagrada alguma vez?




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